quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Livro: Relato de um certo Oriente - Milton Hatoum

Romance de estréia de Milton Hatoum explora as memórias de uma família libanesa radicada em Manaus.



Quando nos deparamos com uma narrativa, nossa expectativa geralmente é a de encontrar um texto linear, com as ações ordenadas cronologicamente e com um narrador que nos possibilite visualizar os personagens através da descrição de suas características físicas. Todas essas expectativas devem ser abandonadas para a leitura de “Relato de um certo Oriente”, romance de estréia do promissor escritor Milton Hatoum, que conta a história de uma família de imigrantes libaneses na Amazônia brasileira.

No Brasil, são diversas as formas que o romance vem tomando com a multiplicidade de situações que a vida moderna propõe. Milton Hatoum surge em meio a essa multiplicidade. Nascido em Manaus em 1952, o escritor e também arquiteto é mestre em Letras pela USP e professor de Língua e Literatura Francesa da Universidade do Amazonas. Morou em Brasília, na Espanha, na França e nos Estados Unidos. Talvez por isso apresente no seu texto grande influência de escritores como Virginia Woolf, Faulkner e Proust. A propósito, o leitor que já leu esses autores, consegue passear facilmente pela história, enquanto o leitor ainda não familiarizado com esse estilo pode sentir certa estranheza.

Ambientado na década de 50, “Relato de um certo Oriente” apresenta uma mulher descrevendo ao irmão, que vive na Espanha, sua volta à cidade natal, Manaus, depois de muitos anos ausente. No decorrer de sua narrativa, descobrimos que esta mulher, assim como o irmão, foi adotada e criada por Emilie, matriarca de uma família libanesa e astro-rei da casa que a narradora reconstrói em seu relato e que serve de cenário para os intensos conflitos e dramas surgidos entre os personagens dessa história. Porém, esses relatos não são feitos de forma linear, e o leitor é obrigado a organizar as informações que misturam passado, presente e futuro. No fim do livro as vozes se encaixam num coral coeso através da narradora principal, que esclarece ao leitor (se dirigindo ao seu irmão) como os relatos foram organizados.


“…ao final de cada passagem, de cada depoimento, tudo se embaralhava em desconexas constelações de episódios, rumores de todos os cantos , fatos medíocres, datas e dados em abundância. Quando conseguia organizar os episódios em desordem ou encadear vozes, então surgia uma lacuna onde habitavam o esquecimento e a hesitação: um espaço morto que minava a seqüência de idéias.”


Eis a grande semelhança entre Milton Hatoum e os demais autores acima mencionados. Seus textos propositalmente misturam vozes e tempos distintos, transmitindo uma idéia de simultaneidade. Como em um processo de revelação fotográfica , somos apresentados aos personagens e fatos vagarosamente de maneira aleatória. Aos poucos vamos conseguindo enxergar a história como um todo, construindo a linha do tempo dos acontecimentos narrados, assim como montamos nossa própria memória. As imagens são sempre interditas. Ao invés de se descrever a morte, por exemplo, descreve-se o luto ou a sua confrontação. Construção semelhante a que Virgínia Woolf fez em seu livro “To The Lighthouse” (no Brasil o título é traduzido por “Ao Farol”, “Rumo ao Farol” ou “Passeio ao Farol”), no qual os fatos não são narrados de maneira linear, mostrando o passado simultaneamente ao presente, obrigando o leitor a participar ativamente da construção da história.

O grande ponto positivo do romance é realmente sua estrutura que permite com que o leitor seja ativo e não passivo. Hatoum não apresenta um roteiro pronto e organizado de modo que o leitor possa apenas ler passivamente a história. Cada capítulo é construído de modo a instigar o pensamento, aguçar a curiosidade e a criatividade do leitor que é levado a organizar a história por si próprio.

O tema central da obra é realmente a memória. O autor conseguiu expressar muito bem no texto a forma fragmentária como nossa memória se comporta, num verdadeiro vai e vem no tempo e no espaço, fazendo com que a história se tornasse muito mais verossímil para os leitores. De fato, o autor revelou em certa entrevista que se inspirou na história de sua própria família e na de amigos para escrever o livro.

Interessante observar também que a narradora principal, como ela mesma relata no último capítulo, plana “como um pássaro gigantesco sobre as outras vozes. Assim, os depoimentos gravados, os incidentes, e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz…”. A cada novo capítulo o leitor precisa se esforçar para descobrir quem é o narrador, sempre orientado pela narradora principal, passeando por várias vozes como as do fotógrafo Dorner, do tio Hakin e da vizinha Hindié.

Outra coisa que chama atenção na obra é o fato dela se ambientar em Manaus, surpreendendo àqueles que pensavam que o Brasil começava no Rio de Janeiro e acabava em Salvador. Nunca se esperava que, dentro da literatura brasileira, um romance sobre um drama familiar se ambientasse na Amazônia. O tema do retorno às origens parece refletir um desejo de retorno do próprio autor ao passado de sua cidade natal: Manaus.

O livro de Hatoum é mais que uma história de estrangeiros, mas de exilados, de pessoas que perderam sua cultura, sua religião, sua língua. Todos os personagens sofrem um certo tipo de exílio: Emir exilou sua irmã Emilie do convento, obrigando-a a voltar para casa, assim como ela o arrancou de Marselha; o tio Hanna e o marido de Emilie saíram do Líbano para um eterno exílio na floresta; Samara Délia, filha de Emilie, foi exilada de sua família quando engravidou ainda solteira; Soraya Ângela se sentia exilada do mundo por ser surda. A própria narradora principal, filha adotiva de Emilie, passa anos exilada numa clínica psiquiátrica. Logo, os personagens buscam redescobrir seu passado em objetos, nos rabiscos, na borra de café no fundo da xícara. Podemos notar isso por exemplo no apego que a Emilie tem por um relógio de parede antigo.
“Perguntei várias vezes à minha mãe por que o relógio e, depois de muitas evasivas, ela me pediu que repetisse a frase que eu pronunciava ao olhar a lua cheia (…) ‘é a luz da noite’.”

É interessante observar que a protagonista não tem voz no romance. Vários narradores vêm nos guiar nessa viagem ao passado, mas Emilie não é um deles. Todos estão intimamente ligados a ela, contam sua relação com a protagonista e sua história. Porém, Emilie possuía autoridade e certo poder sobre todas as vozes do livro e acaba ganhando voz indiretamente. Todos os narradores do livro nos apresentam a matriarca de uma família em ruínas, que carrega consigo toda a história, origem e fim do enredo do romance.

“Relato de um certo Oriente” é o relato de uma perda, ou de várias. A “memória” é realmente o grande tema dessa obra, pois os narradores acabam remontando o passado na busca de suprir essas perdas. Instigante e recheado de personagens interessantes, este é com certeza um romance de estréia forte que permite com que Milton Hatoum seja aclamado como um promissor autor contemporâneo.

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