quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Lady Gaga e 'Applause': conceito, criatividade e identidade raras na atual música pop



O verão americano ainda é o epicentro da música pop mundial. Os meses de julho, agosto e setembro são os meses mais movimentados do mercado pop. É o período no qual são realizados a maioria dos lançamentos que eventualmente se tornarão os hits do ano. Nesse ano, Mariah Carey prometeu um grande retorno com #Beautiful, mas o projeto foi engavetado por desavenças com a gravadora. Robin Thicke surpreendeu com seu single “Blurred Lines”, Katy Perry fez uma gigantesca campanha de marketing para lançar “Roar” e Lady Gaga retornou com o seu tão falado ARTPOP, tendo como primeiro single “Applause”.
 
Mas todas essas músicas nada mostraram de realmente novo quanto à sonoridade ou a letra. Mariah e Cher apresentaram uma sonoridade diferente em seus singles, mas infelizmente elas estão "velhas” para os mercado (questão que irei discutir em outro post). Parece que todos os artistas pop da atualidade, na busca por relevância, estão ficando cada vez mais genéricos e ficando sem uma identidade. No meio desse mundo de ‘mesmices’, surgiu Lady Gaga.

Uma das coisas que mais diferenciam Lady Gaga dos maiores artistas presentes hoje na música pop é sua preocupação com os conceitos do que produz e sua identidade muito bem marcada. Suas músicas perdem o sentido se interpretadas por qualquer outro artista.

Uma de suas marcas registradas mais fortes são seus vocais. Gaga já declarou ter como inspiração artistas como Sinead O'Connor e David Bowie. Aquele tremor nos vocais e uma certa agressividade são muito característicos dela e provam que Gaga tem uma voz muito mais versátil e cheia de identidade do que outros novos astros da música pop. Em ‘Applause’ isso está bem claro, uma música simples e mais leve (que é refletido até em como ela se apresenta no clip, quase sem maquiagem).
 
Lady Gaga está adotando um novo conceito nessa era ARTPOP sem perder sua identidade. Como observou meu amigo Thales Estefani, ela veio de uma era pesada, com muitas mensagens e informações (Born This Way) e se apresenta agora de maneira simples, de cara (quase) limpa. Ela reuniu um time de artistas conceituados para trabalhar os conceitos ARTPOP em suas músicas, clips e performances, que foi um movimento dos anos 50 no qual os artistas buscavam inspiração na cultura de massas para criar suas obras de arte, aproximando-se e, ao mesmo tempo, criticando de forma irônica a vida cotidiana materialista e consumista.
 
A letra de "Applause" também brinca com esses conceitos e comportamentos pop de uma maneira que sinto ser despretensiosa. Ao escutar a música pela primeira vez não gostei de cara. Ao escutá-la mais vezes fui percebendo seu valor. Sendo simples, fica mais evidente o refrão meio ‘delirante’ e suas referências à cultura popular (mais evidentes no clip).

Além disso, Gaga consegue fazer um pop arrogante e irreverente, como nenhum outro artista pop têm feito. Com a exceção de "Thrift Shop" de Macklemore & Ryan Lewis não tivemos outra canção pop irreverente nos charts no ano passado. Ganhamos isso com ‘Applause’ esse ano.

Assim como em "Applause", em outras músicas da Lady Gaga sempre há um conceito maior envolvendo grandes artistas plásticos, fotógrafos renomados e uma equipe expert no tema que ela se propõe a tratar. A maioria dos artistas pop atualmente parece que se mantêm sobre o vazio, e tentam produzir hits baseados na demanda do mercado, algo meramente comercial.

"Roar" da Katy Perry parece muito com “Brave” de Sara Bareilles e com mais outras 200 músicas lançadas nos últimos anos. Katy ainda twittou a uns meses atrás que ela adorou "Brave", talvez já prevendo a polêmica no futuro. ‘Applause’, como a maioria das canções de Lady Gaga, dificilmente se confundiriam com outras canções.

A grande polêmica sobre a Lady Gaga gira em torno de pessoas a acharem pretensiosa. Para mim, isso acontece pelo mesmo motivo que chamam Bjork de "estranha", com a diferença de que Gaga realmente busca um sucesso comercial e Bjork nunca teve essa relação de amor com os charts.
 
É muito claro que Lady Gaga sabe muito bem trabalhar sua marca. Ela possui uma identidade muito bem definida, marcante e sabe 'fidelizar' seus 'clientes'. Ela criou os little monsters, forma como chama seus fãs, que por vezes trazem má fama para a cantora com comportamentos mais exóticos que fanboys de outras cantoras.

Mas, acima disso tudo, Gaga sempre teve um discurso genuinamente político na luta pelas minorias, pela igualdade e contra discriminações e bulllying, em especial com o público gay. Enquanto alguns artistas se aproveitam desse discurso pontualmente, Gaga fez dessa luta parte de sua identidade e trouxe as minorias para o centro do cenário musical.
 
Gaga não só criou uma persona interessante para a música pop, que se tornou vendável, mas ela também trouxe mais criatividade e originalidade para o gênero que estava caindo cada vez mais na rotina. Por mais que não seja grande fã de suas músicas, tiro o meu chapéu para a artista, e torço para que ela continue trazendo mais autenticidade para os charts e instigue outros cantores a fazer o mesmo.
 
Veja abaixo o clip de 'Applause':






E você? O que achou do retorno da Lady Gaga?



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