terça-feira, 3 de março de 2015

Brasil: o país da contravenção e da dislexia política

Brasil: o país da contravenção e da dislexia política capa política The Economist*


Em seu primeiro disco, em plena Ditadura Militar, Caetano Veloso escreveu em "Tropicália": "eu oriento o carnaval (...) no planalto central do país", fazendo uma referência a Brasília como algo similar a uma festa anárquica. Na mesma canção ele declara que o país é mascarado desde a carta de Pero Vaz de Caminha. 

Esse é o nosso país. País em que a contravenção é mais eficiente que os sistemas políticos, como afirmou corretamente Neguinho da Beija-Flor, para justificar a sua escola de samba ter ganho com patrocínio ilícito do governo ditador da Guiné. 

País onde não existe mais ética nas esferas superiores, e que, por isso, qualquer organização faz a festa, faz o que quer, e não é punida.

País em que juiz leva bens apreendidos de empresário (Eike Batista) pra casa. Mesmo empresário cujo filho atropelou e matou um ciclista pobre e negro e foi absolvido.


País em que o serviço da CCR Barcas Rio-niterói anuncia saída para 8h35 e sai ás 8h50. E quando passageiros vão reclamar na ouvidoria, órgão criado por lei para proteger o consumidor, a ouvidoria tem a cara de pau de afirmar que ela saiu sim ás 8h35.

País em que, se o consumidor for entrar na justiça pelos seus direitos, tem que investir MUITO tempo e esforço para conseguir ser parcialmente resarcido. 

País que deveria ser laico mas que a constituição cada vez mais se confunde com a bíblia e o preconceito religioso, a homofobia e o misoginismo se tornam cada vez mais uma realidade defendida por nossos governantes e pela lei.

País em que Universidades Federais têm METADE das verbas bloqueadas pelo MEC e que parlamentares votam por aumentos de salários e por benefícios milionários para suas esposas antes de feriadão ou na véspera da abertura da Copa para que 4 dias depois ninguém mais fale sobre isso. 

País que tem as cargas tributárias mais altas do mundo e que o trabalhador médio paga cerca de R$500.000,00 de impostos na vida para receber R$800,00 de aposentadoria.

Não é culpa só da Dilma, do Lula, do FHC, dos militares. É culpa do jeitinho brasileiro que governa nosso país à séculos.

Vivemos um desequilíbrio entre a modernidade  (velocidade de informação + número absurdo de pessoas + facilidade de acesso a diferentes mídias) e a política. Temos a sensação de que os políticos estão abusando, mas pra eles isso é normal, sempre aconteceu. Parece que eles não vêem que isso descredita as instituições que os promove, ou que não se importam com isso.

Vivemos a pouco tempo um período negro de Ditadura Militar no Brasil em que ser politizado incorria em risco de vida (os mesmos militares que alguns manifestantes querem trazer de volta ao poder). Depois de anos de despolitização, em junho de 2013 o povo foi às ruas em todo o país falar que "o gigante acordou". 

Acredito, de verdade, na metáfora de que o Brasil tenha acordado e que estejamos passando por uma espécie de despertar político, ao som de alarmes democráticos. Ou ao menos quero acreditar. Mas, em vez de gigante, eu diria que nós acordamos infantes, incapazes de articular sequer seus próprios desejos. Crescemos o suficiente para nos distanciar do nosso passado, para andar com nossas próprias pernas. Mas, como qualquer criança, ainda não fazemos a menor de ideia de como fazer as coisas acontecerem, como construir nosso futuro. E isso dá margem para todo tipo de insanidade política.

Olha a qualidade da última eleição (2014). Olha para o nosso atual congresso. Olha para o coro pró-Eduardo Cunha no Brasil. Olha para o Bolsonaro ganhando cada vez mais apoio popular. Olha para os governadores eleitos. Percebemos que estamos vivendo a infantilidade política quando ela se propaga por memes em círculos do facebook. Ela precisa evoluir disso.

O País inteiro está, mais uma vez, envolto numa onda partidário-maniqueísta de auto-destruição. Por diversas vezes tentaram formatar esse país, sem fazer backup.  O problema é que sempre colocam um sistema operacional muito, muito pior. Golpes disfarçados de revolução que fazem os sistemas serem cada vez mais nocivos. Foi golpe após golpe, desde a monarquia até hoje.

Cada vez mais sou obrigado a concordar com os céticos que o Brasil não tem mais jeito a 500 anos. O jeito é devolver pros índios e pedir desculpas.

*Ilustração com capas da revista "The Economist" dos anos 2009, 2013 e 2015.

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